6 de outubro de 2010

A Mídia na Nuvem

Hardware vira software e software migra para a nuvem. É um processo inexorável de evolução tecnológica da mídia. A música, por exemplo, foi embutida em hardware durante muito tempo. O disco de vinil surgiu em 1948, substituindo os antigos discos de goma-laca. A fita cassete veio em 1963 seguida pelo disco compacto (CD) em 1982.  Em 1995, o Moving Pictures Experts Group (MPEG) apresentou o formato mp3 e a música virou software. Hoje, a música está na nuvem, disponível para ser ouvida por meio de serviços como Spotify, Last.fm e Pandora, em qualquer dispositivo conectado, independente de sistemas operacionais ou programas. O mesmo está acontecendo com filmes e livros.

A nuvem é a capacidade de armazenamento e processamento coletiva de conjuntos de computadores e servidores espalhados pelo mundo. Estes são mantidos por empresas como Microsoft, Amazon, Google, IBM, Cisco e muitas outras. Elas "alugam lotes" para empresas e indivíduos por um preço que pode ser mais ou menos transparente, mais ou menos subsidiado. Se você usa Gmail, Hotmail, Wordpress, Blogger, Picasa, Flickr, YouTube, Orkut ou Facebook, entre muitos outros serviços online, uma parte de seu conteúdo já está na nuvem. A nuvem também carrega os programas necessários para consumir esse conteúdo. Assim, para acessá-lo, você só precisa de uma conexão à internet e um navegador.

A mídia migrará para a nuvem porque ela representa uma arquitetura de distribuição com enormes vantagens para as empresas do setor e para seus consumidores. Para a empresa, a nuvem reduz custos e riscos. Oferece maior segurança, escalabilidade e confiabilidade. Por outro lado, exige a superação de uma barreira psicológica: requer que a empresa abdique do controle absoluto sobre seu conteúdo passando a compartilhá-lo com as empresas que provêm esses serviços. Eventualmente, até essa barreira, que hoje parece beirar o intransponível, será superada. Não pelas vantagens técnicas e financeiras da nuvem, mas em função dos serviços que, por meio dela, poderão ser agregados ao conteúdo. E, na medida em que a nuvem se desenvolver e mostrar a que veio, consumidores vão exigir esses serviços, dedicando cada vez menos tempo e dinheiro aos que não os oferecem.

Por meio da nuvem, por exemplo, poderemos consumir conteúdo em distintos aparelhos sem interrupção. Se estamos vendo um filme na televisão e tivermos que sair, poderemos continuar assistindo, do mesmo ponto em que paramos, ao acessá-lo novamente do tablet no táxi. Isso porque a informação sobre o ponto em que paramos ficará armazenada na nuvem, pronta para ser acessada por qualquer aparelho em qualquer lugar. O mesmo vale para livros, revistas e jornais, que poderemos acessar enriquecidos com anotações de nossos amigos ou contatos profissionais e aos quais poderemos acrescentar nossas anotações, compartilhando-as ou não. Com o tempo, nossos comportamentos de consumo de conteúdo e serviços serão registrados e a nuvem, por meio de qualquer aparelho que estivermos usando, saberá nos oferecer o que queremos e opções afins assim que os ligarmos. Além de útil isso reduzirá o tempo que dedicamos à navegação. Assim, a nuvem potencializa as três maiores tendências que observamos hoje em relação ao consumo de tecnologia e conteúdo digital: mobilidade, socialização e personalização.

Empresas de conteúdo vão descobrir muitas outras vantagens estratégicas na nuvem. A comercialização de conteúdo se tornará mais fácil. Com um clique, o consumidor integra um novo conteúdo à sua biblioteca multimídia, virtual, pessoal e passa a poder acessá-lo instantaneamente. Além disso, com a agregação de serviços - os mencionados acima, entre outros - o conteúdo original ganha atratividade e competitividade em relação ao pirata. Conteúdo é fácil de se copiar, mas será impossível replicar as camadas de dados necessárias para prover serviços de personalização, socialização. mobilidade e outros que sequer podemos imaginar. E, se o preço for justo e acessível, consumidores pagarão por tais serviços pois tornam muito mais cômoda, prazerosa e utilitária sua interação com o conteúdo.

A revolução nebulosa está próxima, mas ela ainda não chegou. Uma das principais barreiras é a conectividade, recurso ainda limitado no mundo. Só estaremos dispostos a armazenar nosso conteúdo na nuvem quando tivermos um certo grau de certeza quanto a possibilidade de acessá-lo dos lugares que frequentamos. E não bastará qualquer conexão. Precisaremos ter banda cada vez mais larga para suportar conteúdo cada vez mais rico como vídeo e conteúdos interativos de rich media.  Mesmo que apenas a camada de dados de serviços resida na nuvem (com as cópias codificadas do conteúdo em si armazenadas em cada um de nossos aparelhos e atualizadas automáticamente sempre que uma conexão de banda larga estiver ao alcançe), precisaremos de conexões rápidas para interagir com o conteúdo agregado dos serviços aos quais já estaremos acostumados.

Outro desafio importante são as leis de direitos autorais. Na nuvem, não serão vendidas cópias do conteúdo mas, sim, licenças para utilizá-lo durante toda a vida com determinadas (poucas) limitações. Pode parecer simples determinar os usos do conteúdo que serão autorizados e os que não serão. Mas, além de ser uma decisão mercadológica complexa, implica na revisão de todo o conceito básico das leis de copyright, bem como na reformulação de todos os contratos com autores, editores, ilustradores, fotógrafos, cinegrafistas, atores, modelos e assim por diante.

Para produtores e distribuidores de conteúdo, é o momento de começar a estudar essa tendência e elaborar a estratégia da empresa diante desse novo paradigma. A revolução pode não ter chegado ainda, mas ela está a caminho, ganhando impulso e velocidade. E é certo que não serão as empresas de conteúdo, mas sim as de tecnologia e comunicação, que irão controlar a nuvem. Assim, é fundamental para empresas de mídia compreender as implicações na forma de se distribuir e consumir conteúdo e desenvolver estratégias que contemplem sua gestão e controle, mesmo que compartilhados, dos elementos da nova cadeia que geram o maior valor.

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