22 de agosto de 2010

A Web está morta?

A próxima capa da revista Wired declara o óbito da web em editorial de capa escrito por ninguém menos que seu diretor de redação, Chris Anderson, também autor de A Cauda Longa e Free - Gratis. A intencional polêmica já foi alcançada antes mesmo do lançamento da edição impressa, pois o texto, ironicamente, foi publicado primeiro no website da revista (leia "The Web is Dead. Long Live the Internet", em inglês). A matéria de capa é quase certamente um esboço do próximo livro do editor quem, utilizando sua já consagrada fórmula, o esreverá a partir do debate público a que acaba de dar início. (É uma fórmula genial para o desenvolvimento de conteúdo na era digital, diga-se de passagem.)

Vamos entrar no debate. A idéia central que Anderson e seu co-autor, Michael Wolff (biografista de Rupert Murdoch), propoem é a de que os applicativos que se tornaram tão populares no iPhone, iPad e nos aparelhos Android e o sistema fechado que eles representam irão substituir a web aberta -caracterizada pelo uso do navegador como interface e pela abertura para indexação por buscadores - como modo predominante de distribuição de conteúdo profissional pela internet. Para eles, então, trata-se de um confronto épico entre o modelo Apple e o modelo Amazon do qual o primeiro está emergindo vitorioso. Para mim, esta conclusão parece extremamente prematura.

A começar pelo vistoso gráfico que abre a matéria, e que reproduzo abaixo, o texto oferece poucos dados concretos para sustentar seus argumentos (o que não o torna menos relevante ou intrigante).


O gráfico mostra a proporção do tráfego da internet representada por cada tipo de transmissão de dados e, a partir da tendência de queda da web, extrapola seu declínio e eventual morte. Errado. Em última análise, o que determina o valor do conteúdo é o tempo a ele dedicado pelo consumidor. É esse grau de engajamento que vai determinar quanto o próprio consumidor estará disposto a pagar pelo conteúdo. E, indiretamente - multiplicado pelo número de consumidores que dedicam àquele conteúdo tal atenção - quanto pagará um anunciante pela oportunidade de aproveitar esse engajamento em massa para transmitir sua mensagem comercial. Portanto, trata-se de um gráfico irrelevante para o debate. Por que? É simples: a quantidade de dados em uma transmissão de conteúdo pela internet não é proporcional ao tempo que será dedicado pelo usuário para consumí-lo.

Em outras palavras, um minuto de texto é composto por uma quantidade muito menor de dados que um minuto de vídeo. Aliás, se extrapolarmos o grafico da revista por mais 5 anos, até 2015, o conteúdo em vídeo será responsável por 90% do tráfego de dados pela internet, o que não significa que irá deter 90% do valor gerado pela comercialização de conteúdo direto ao consumidor ou da publicidade online.

Naturalmente, isso não invalida por completo a tese da Wired. O sucesso da Apple não permite ignorarmos a pergunta fundamental levantada pela revista: as pessoas irão favorecer modelos de acesso e consumo de conteúdo mais bem resolvidos - como é nos aplicativos - mesmo que tenham que pagar por eles? Essa é a pergunta de 100 bilhões de dólares.

Não se trata de uma disputa entre dois modelos de distribuição de conteúdo, web vs. aplicativo. Em minha opinão, o que o sucesso dos aplicativos está demonstrando é algo bem mais fundamental e nada novidoso: que as pessoas valorizam a conveniência. O conteúdo é o mesmo na web e nos aplicativos, então o que muda? O que explica o êxito do iTunes quando praticamente todas as músicas lá vendidas estão disponíveis pela web? Em uma palavra: serviço. Ou seja, a facilidade e conforto de se achar, degustar, comprar, armazenar e consumir um conteúdo contribui para seu sucesso ou fracasso assim como a qualidade e relevância do conteúdo em si.

O fato é que os aplicativos elevaram o nível de serviço em torno do contéudo criando experiências superiores para o consumidor. Saíram na frente demonstrando que as pessoas estão, sim, dispostas a pagar por combinações de produto e serviço de informação ou entretenimento que lhes ofereça o que querem por um preço que estão dispostos a pagar (e cujo processo de pagamento também é fácil e conveniente). Ou seja, na disputa pela atenção do consumidor, pelo time spend, não basta apenas investir no conteúdo. É preciso também dedicar tempo e dinheiro á forma como ele será descoberto, adquirido e consumido.

Ainda que os sistemas fechados de aplicativos demonstrem vantagens na produção de experiências integradas e bem resolvidas de consumo de conteúdo isso não quer dizer que estejam bem posicionadas para dominar esse mercado. Por exemplo, eles não são dotados da mesma flexibilidade da web para serem acessados e consumidos em qualquer aparelho de qualquer tamanho. Tampouco proporcionam acesso à vasta quantidade de conteúdo que está disponível na web. Assim, embora não disponha dos dados sobre time spend da média dos consumidores, aposto que a representatividade dos aplicativos ainda é pequena (estão curiosamente ausentes até do gráfico utilizado pela Wired para demonstrar sua acensão). A guerra está apenas começando.

Um comentário:

Ricardo Anderáos disse...

Aprofundando sua crítica sobre esse gráfico: o valor da informação (e não apenas em termos subjetivos, mas objetivos mesmo, mesuráveis em $$) não se mede em megabytes. O e-mail praticamente "some" em volume nesse gráfico ao longo dos anos porque transmite basicamente texto. Arquivos em vídeo ocupam enorme espaço em disco. Mas é claro que planilhas e e-mails trocados por profissionais da área de investment banking tem valor financeiro infinitamente mais alto do que vídeos de centenas de megabytes enviados ao YouTube por adolescentes hiperconectados. O jornal não morreu com o rádio que não morreu com a TV que não morreu com a Web que não vai morrer com a disseminação dos smartphones (ainda que os suportes físicos de cada uma dessas mídias se desloque com a digitalização, descolando do formato original). Nossa dieta de mídia fica cada vez mais rica e sofisticada. Sempre haverá espaço para todos os tipos de paladares.