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10 de setembro de 2010

O dilema do controle

(ou "Como não jogar contra seus fãs")

Copiar conteúdo é fácil. A história tecnológica da mídia - das cópias feitas à mão por monges na idade média, à prensa de Guttenberg até os satélites e computadores - tem sido a busca pela capacidade de produzir e difundir cópias de maneira cada vez mais barata. A internet e outros meios digitais representam o ápice dessa evolução e o começo do grande dilema do controle. Em seu brilhante artigo Newspapers and Thinking the Unthinkable, Clay Shirky resume: "Quando um garoto de 14 anos, em seu tempo livre, pode implodir seu negócio e não por que ele te odeia, mas porque te ama, aí você tem um problema."


Quando o poder de copiar e distribuir sem limites caiu nas mãos do povo, a indústria entrou em parafuso. É irónico que atingir o desenvolvimento tecnológico almejado tenha provocado crises em alguns segmentos e temor em todas os demais. É curioso também. Afinal, alcaçar o maior público possível é a meta inerente de todo conteúdo, seja artístico, científico ou jornalístico. E se a tecnologia permite que cada consumidor se torne um agente promotor e distribuidor do conteúdo essa meta se torna mais fácil de atingir.

De forma geral, o pânico das indústrias de mídia é fruto do desejo de controlar toda a distribuição de seu conteúdo, de exercer o copyright (termo em inglês que se traduz como "direito autoral" mas que, literalmente, significa o direito de copiar). O grande dilema é que controlar diretamente a cópia e distribuição de conteúdo significa também limitar seu potencial alcance ou, para usar um termo internético, sua viralidade. E, além impor limites ao conteúdo, exercer tal controle pode significar agir contra seus maiores fãs como fez a indústria fonográfica mais de uma vez ao processar usuários que faziam downloads ilegais de mp3.

28 de julho de 2010

Do álbum à canção

A indústria fonográfica, uma das primeiras da mídia tradicional a ser atingida pelo tsunami web, ilustra com extrema nitidez um dos principais fenômenos provocados pela acensão da internet com canal de distribuição de conteúdo: a desagregação.

Como se pode observar no gráfico abaixo, as vendas de música - sim, vendas, e não downloads ilegais - vêm crescendo de forma acelerada nos últimos anos. O perrengue pelo qual a indústria passa não deve, portanto, ser atribuído à pirataria digital ou à suposta impossibilidade de se cobrar por conteúdo na internet. Ocorre que a unidade básica de consumo da música mudou. No passado, se compravam àlbuns - primeiro no formato LP e depois em CD. Com o surgimento da internet e do MP3, porém, a unidade de consumo escolhida por aclamação dos consumidores passou a ser a canção, a faixa.

Fonte: Tom Silverman, fundador do New Music Seminar


Em outras palavras, uma vez que lhes é oferecida a opção de comprarem faixas individuais ao invés de serem obrigados a adquirir uma coletânea de músicas, a maioria dos consumidores demonstra preferência por esta nova unidade de consumo. E pode-se extraploar que o mesmo ocorre ou ocorrerá com outras formas de conteúdo cuja forma de comercialização analógica é passível desse mesmo tipo de desagregação. Para jornais e revistas, o artigo passa a ser a unidade de consumo e para alguns tipos de livros, é o capítulo.

Saudosistas irão argumentar que a coletividade dos antigos formatos é parte inerente da obra e que tal desagregação é uma afronta à "arte". É uma meia verdade já que muitos desses formatos foram desenvolvidos de forma a atender as imposições de economias de escala que derivam de tecnologias hoje ultrapassadas. E, em última análise, mesmo que tomemos o argumento como fato, a realidade é que a arte tem que se adapatar ao mercado quando está a serviço dos negócios.

Modelos de negócio que trouxeram muitos lucros às empresas produtoras de conteúdo precisam, assim, ser revistos diante dessa nova realidade. A desagregação impõe, sobretudo, a necessidade de se alterar o modelo de produção de conteúdo. A possibilidade de se desenvolver e comercializar unidades de consumo de conteúdo menores e mais baratas demanda reflexão e revisão desde os critérios utilizados para selecionar o conteúdo a ser produzido até às caracteristias finais do produto a ser oferecido ao consumidor. Mas isso é tema para um outro post.